Porquê dos caveirões: Explicando as necessidades dos blindados policiais
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- Publicado em: Monday, 02 January 2012 20:53
- Por: Vinicius Domingues Cavalcante, CPP
É
notório que a criminalidade dispõe de armas militares e equipamentos sofisticados e que este arsenal vinha cobrando um pesado tributo na quantidade de policiais mortos em ação.
Como profissional da área de segurança, que atua tanto na esfera pública (segurança de dignitários) quanto prestando consultorias à iniciativa privada, venho acompanhado em nosso país um recrudescimento nas ações violentas da nossa criminalidade, a qual, não raramente, vem copiando “modus-operand” tipicamente terroristas.
Quer na cidade ou nas áreas do interior a polícia vem sendo cada vez mais exigida. Poder-se-á argumentar que a solução para essas questões do âmbito da segurança pública estaria em atacá-las nas causas, aplicando com seriedade e retidão os recursos públicos, promovendo uma melhor distribuição de renda, gerando mais emprego e proporcionando uma melhor educação para as nossos jovens e crianças. Porém, enquanto todas essas importantes medidas sociais de aplicação em médio e longo prazo não tomam forma – pelas mais diversas razões – é a polícia a quem compete gerenciar todas as conseqüências de todas as políticas ineficazes. Nas favelas e comunidades carentes a população se queixa da falta de saneamento básico, de luz, da deficiência dos serviços públicos…mas a polícia obrigatoriamente se faz presente, na vertente mais antipática do poder do Estado que é o exercício da coerção e da repressão. O poder público falha quando deixa que surjam assentamentos clandestinos em áreas invadidas, áreas de preservação ambiental ou áreas de risco para edificação, porém, quando a favela se instala, é a polícia quem vai ter de garantir a normalidade e a paz de todos os moradores da área… Se há uma culpa nisso tudo – e eu particularmente acredito que ela exista – por certo não é da polícia. As favelas se apresentam como um caldo de cultura favorável, e nele a criminalidade se instala e cresce. Vai longe aquela época romântica em que havia malandragem, samba, e que as armas eram navalhas, o trezoitão ou, no máximo, uma Colt, no calibre .45ACP. Há algum tempo que, para garantir seus domínios, os criminosos vem empregando pistolas, submetralhadoras, granadas de mão e fuzis. É nessa conjuntura que o veículo de transporte blindado surge como uma tentativa de garantir a integridade do policial fluminense em serviço, o qual – reconhecido por diversas forças policiais estrangeiras – se notabiliza por desincumbir-se de tarefas arriscadíssimas, mesmo com baixo salário e parcos recursos.
Desde a introdução do blindado, a curva ascendente desse gráfico foi significantemente contida e ainda que continuemos amargando baixas no efetivo policial pela intensidade e violência da confrontação, sabemos que o veículo que se convencionou chamar de Caveirão, permite, em que pesem todas as suas deficiências, que vidas dos profissionais sejam poupadas todos os dias. A existência de blindados policiais no Rio de Janeiro não era nenhuma novidade. Desde meados dos anos 70, a Polícia Militar do Rio de Janeiro dispunha de um transporte de tropas blindado, de desenho e fabricação nacional, montado sobre um chassi de caminhão. Tal veículo blindado, o Paladino, embora vez por outra fosse empregado em grandes operações na invasão de favelas, conduzindo tropas policiais sob fogo, foi concebido para emprego em controle de distúrbios civis e adquirido numa época em que nem os mais pessimistas imaginariam que policiais em serviço seriam caçados na via pública, por grupos de criminosos armados de fuzis.
A compra de novos blindados policiais se deu numa época em que a segurança pública era uma peça essencial no marketing do governo estadual. Qualquer medida (até aquelas que ainda se aventava tomar) era motivo para longas e ricamente ilustradas matérias jornalísticas. Alardeava-se que a criminalidade seria sobrepujada pelos novos fuzis comprados para as polícias, pelos novos helicópteros de controle remoto capazes de prover monitoramento das áreas de risco sem expor aparelhos e tripulações, pelos novos grupamentos especiais de patrulhamento de áreas de risco, pela nova política de levar um batalhão policial para o coração da Favela da Maré… e também pelos novos veículos blindados de transporte. Curiosamente o primeiro anúncio da nova aquisição se deu em matéria no Jornal O GLOBO, numa edição de domingo, e explicava que o governo do estado estaria em negociação para adquirir uma versão do blindado RG-12, produzida no Canadá pela General Dynamics Land Systems.
A introdução do “novo” equipamento se constituiu numa boa vantagem tática para as forças da Lei e trouxe visível intranqüilidade à criminalidade. Com os novos blindados a polícia passou a incursionar com muito mais liberdade e segurança no interior dos ditos “domínios do tráfico”. Era contudo esperado que a presença policial mais constante originasse queixas no âmbito das comunidades; tanto reclamações legítimas como aquelas discretamente insufladas pela criminalidade. Com a proteção blindada, não se pode excluir a possibilidade de um policial, que antes freqüentemente se arriscava, de peito aberto, naquele mesmo local, passar desfrutar de uma pretensa sensação de imunidade e pretender, com isso, desforrar-se naqueles que crê acumpliciados com o crime. Surgiram relatos de atemorização e maus tratos das tripulações para com a população, de emprego clandestino dos blindados por policiais corruptos (favorecendo uma facção criminosa em detrimento de outra) bem como também histórias de disparos a esmo, feitos do interior do carro. Associações de moradores e entidades de defesa dos direitos humanos engrossam o coro daqueles que pedem o fim das operações com os blindados policiais, chegando mesmo ao exagero tendencioso de associá-los às práticas repressivas do governo segregacionista sul-africano, com o seu temível blindado “Yellow Mellon”.
Ora, os desvios de conduta dos policiais já eram puníveis anteriormente e continuarão sendo independentemente da polícia dispor de veículos blindados ou não. Não é o veículo blindado, mas sim pessoas que eventualmente agem de forma condenável; e exemplos de má conduta, infelizmente em nosso país, acontecem em todos os segmentos, não só no meio dos policiais que, por dever de ofício, tem de se expor no combate a bandidos bem armados. Há quem cause muito mais danos à sociedade empregando canetas Mont Blanc. Da mesma forma que a existência de parlamentares desonestos não pode ser usada como pretexto para que retrocedamos quanto à manutenção das instituições democráticas, o fato de existirem policiais que transgridam a Lei não pode preponderar sobre os benefícios que os blindados trouxeram para o serviço policial, sobretudo nas chamadas áreas de risco. Aliás, tal analogia é tão verdadeira que não condenamos todas as associações de moradores de favelas apenas pela constatação de que muitas de suas lideranças colaboram ativamente nas práticas criminosas no âmbito de suas comunidades. Ao contrário daquilo que o autor já ouviu de uma representante de uma ONG, os blindados policiais não surgiram com o aumento da opressão racista na África do Sul. No século XIX, países europeus às voltas com distúrbios civis já empregavam carruagens, revestidas de chapeamento metálico, a fim de proteger os policiais do arremesso de pedras, garrafas e dos disparos de armas curtas. Na década de 20, países como a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e Itália já dispunham de numerosos veículos blindados em suas forças policiais. Na América Latina, nos anos 30, a Polícia Federal Argentina, já contava com caminhonetes Ford dotadas de carrocerias blindadas de fabricação nacional.
Naquela época, veículos blindados policiais eram basicamente uma ferramenta para controle de distúrbios, sendo também empregados em funções de escolta. Nesses quase oitenta anos o mundo ficou muito mais perigoso, as ameaças criminosas se sofisticaram, mas o leque de missões que vem requerer o emprego de viaturas blindadas manteve-se basicamente o mesmo: controle de distúrbios civis, remoção de barricadas, transporte de tropas em áreas conflagradas, apoio às unidades especiais (SWAT) e escolta. Praticamente todas as polícias do mundo empregam hoje veículos blindados e muitas delas, por necessidade ou questão orçamentária, adaptaram viaturas militares para o serviço. Blindados sobre rodas como o BTR-40 de origem soviética, Casspir sul-africano, Pig, Sarracen Saxon, Simba e Shorland de origem britânica, o Kondor e o UR-416, alemães, os Cadillac Gage Ranger e da série V-100 americanos, o Berliet VB-170, francês, o Timoney, irlandês etc. O ultimamente tão falado “Yellow Mellon” (o RG-12 de fabricação sul-africana) que no Brasil virou até enredo de escola de samba, sequer se enquadra nessa categoria, pois foi desenvolvido exclusivamente para funções “mais brandas” de segurança interna, tendo se tornado um sucesso de vendas. Curiosamente, o mesmo veículo policial que se virou símbolo de opressão na África do Sul, equipa ainda diversas polícias nos Estados Unidos, Canadá, Itália, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Kuwait, Arábia Saudita, Moçambique, Malawi e Emirados Árabes Unidos, com cerca de 700 unidades produzidas. O RG-12 empregado por diversas forças policiais nos Estados Unidos (acima) e na África do Sul na época do regime segregacionaista. Algumas forças policiais na Europa e Estados Unidos chegam mesmo a empregar viaturas blindadas de esteiras, normalmente mais pesadas e normalmente de blindagem mais espessa do que os carros sobre rodas. Com o aumento da ameaça terrorista em muitas partes do mundo, diversos países estão adquirindo blindados para a segurança interna. As forças armadas de Israel adquiriram 130 blindados Wolf para missões de segurança interna, a Itália já teria comprado 80 RG-12, sendo que o requerimento dos Carabinieri e das suas demais forças policiais é de, pelo menos, 200 veículos blindados. Embora venha expressando essa opinião desde 2004, o tempo vem mostrando que o “Caveirão” e seus derivados não são efetivamente adequados ao enfrentamento das ameaças da criminalidade no Rio de Janeiro. Os “Caveirões” tem inadequações de desenho, de proteção de mobilidade e ainda que tenham recebido alguns melhoramentos, as ocorrências vem expondo perigosamente suas vulnerabilidades.
Do ponto de vista psicológico da confrontação com o crime, não é desejável deixar o criminoso com a sensação de que ele pode enfrentar o blindado. Doutrinariamente, devemos manter sempre os criminosos na defensiva; a idéia é que o emprego do veículo, poderoso e invulnerável aos olhos do bandido, não deixe a ele qualquer outra opção senão a de entregar-se (para ser preso), ou morrer. Empregar um blindado cujas deficiências o inimigo hoje bem conhece e que se pode avariar sem muito esforço, só é uma melhor opção tática do que a simples não utilização do veículo. Em face do risco de emprego pela criminalidade de lançadores de foguetes anti-tanque, a estrutura do carro, bem como seu grupo propulsor e suspensão, deveriam permitir a colocação de uma blindagem do tipo “gaiola” sem acarretar uma significativa degradação da performance. A referida proteção detona as granadas anti-tanque de carga oca (HEAT) antes delas poderem chegar à carroceria do carro, garantindo maiores chances de sobrevivência para o veículo e seus ocupantes. Considerando as armas capturadas (inclusive explosivos comerciais, granadas de bocal, disparadas por fuzis e uma razoável quantidade de lançadores de foguete anti-tanque americanos M-72, em condições de uso), bem como todos os recursos materiais e humanos disponíveis aos criminosos, devemos considerar um grande golpe de sorte que nenhum carro haja sido destruído até a presente data, com baixas fatais em sua tripulação. Lançador de foguetes anti-tanque M-72, de procedência americana, diversos dos quais já foram capturados em poder de criminosos no Rio de Janeiro, nos últimos anos. Mesmo porque durante um bom tempo não faltaram ações sensacionalistas (algumas especialmente filmadas por equipes de TV) em que temerários policiais nos veículos se embrenhavam sozinhos (sem cobertura aérea, apoio de outros veículos ou efetivos à pé) em ruas escuras, no interior de favelas, acreditando piamente numa suposta invulnerabilidade da couraça do carro, entretanto passíveis de serem emboscados e mortos sem muita dificuldade.
Costumo dizer que é perigoso para os profissionais de segurança, contar apenas com a boa sorte, a qual sempre pode acabar sem aviso. O crime brasileiro ainda tem foco centrado na atividade econômica do comércio de droga e embora exista um grande histórico de ações de confrontação violenta ao poder constituído, para nossa sorte o objetivo de comercialização do produto ilícito ainda norteia as lideranças desse ramo de atividade. Talvez, a destruição do blindado policial possa ser contraproducente para os negócios. Por certo incendiar ônibus com pessoas dentro também o é; porém temos de convir que nem sempre a criminalidade deixa prevalecer seu senso empresarial. Seja qual for o grupo ou facção, eles precisam convencer a todos que conservam seu prestígio e certamente o farão infundindo o terror, sobretudo com uma ação espetacular. Como um símbolo da força policial antagônica, os “Caveirões” são alvos prioritários de um crime que, Graças a Deus, nem sempre é tão competente na execução de seus planejamentos; porém não se deve descartar que haja muitos de seus integrantes pensando em como podem mandar o veículo blindado para o ferro-velho. Não sou eu quem vai discorrer aqui, acerca de como neutralizar o carro blindado; mas não se deve subestimar a inteligência dos nossos adversários. A criminalidade está em constante aperfeiçoamento de seus métodos. Pode ser que, por hora, aqueles que dispõe das armas não possuam competência técnica para empregá-las (ou vice-versa), mas até quando isso perdurará? No dia que o primeiro bandido lograr êxito, com certeza a intensidade do nosso pesadelo aumentará exponencialmente!
O ideal será sempre o de contar com um veículo mais robusto, que não seja tão facilmente incapacitável como estes nossos blindados de transporte de valores adaptados. No Brasil estou certo de que a necessidade de contar com viaturas blindadas policiais aumentou ainda mais nesse novo início de século. Não só o Rio de Janeiro, mas outras unidades da Federação também precisariam ser equipadas com blindados. Se antigamente esses veículos blindados serviam apenas para dispersar multidões com canhões de água e munições não letais, é fato de que, atualmente, eles seriam extremamente necessários para coibir violentas ações de banditismo, sobretudo no interior de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Goiás, Maranhão e Pará. Embora boa parte dos brasileiros simplesmente ignore isso, há tempos estamos nos deparando com recrudescimento das ações criminosas no interior do país. São quadrilhas numerosas, bem equipadas e armadas com fuzis e metralhadoras, as quais se dedicam a roubar bancos, estabelecimentos comerciais, industriais e às vezes até cidades inteiras! Em ações bem planejadas, tais grupos valem-se de um quantitativo numérico superior e de um armamento que, em certos casos até excede ao dos traficantes fluminenses e paulistas. Há hoje até histórico do emprego de metralhadoras pesadas de calibre .50”, montadas em caminhonetes, coisa que nunca ocorreu no Rio de Janeiro. Metralhadora pesada calibre .50”, armas, munições e explosivos, apreendidos em 2004, antes de serem entregues a uma quadrilha que atuava no interior da Bahia.
Quem quer que já haja enfrentado um desses grupos no interior, sabe bem “como o bicho pega”. Principalmente pelo fato de que, nos lugares mais afastados das capitais, não há perspectiva de um socorro policial que chegue rápido e os policiais normalmente tem de se haver com os recursos de que dispõe. As unidades de polícia do interior, quando muito dotadas de revólveres, espingardas calibre 12, carabinas e quando muito, fuzis Mauser, de repetição, não tem como se opor a um poder de fogo assustadoramente superior e diversos policiais já morreram no enfrentamento desses grupos. Para enfrentar tais grupos, veículos blindados juntamente com uma tropa melhor adestrada e equipada podem constituir-se num recurso inestimável. Paralelamente essas viaturas blindadas poderiam ser extremamente úteis no interior, salvaguardando os policiais que atuam nas desocupações de propriedades rurais e em toda sorte de distúrbios civis, empregando armamento e munições de efeito moral. Estou certo de que poderia ser compensador para a nossa indústria, produzir os veículos de que necessitamos. Vejamos bem: se a antiga Rodésia (em meio a uma guerra civil) podia produzir carros blindados eficazes e de características copiadas até hoje; se as Filipinas podem produzir um carro bom sob licença… e se nós, antes mesmo da ENGESA despontar como um centro de excelência na fabricação de blindados sobre rodas, já fizemos aqui (na antiga Companhia Sulamericana de Carrocerias) carros como o Paladino, qual a razão de não produzirmos um blindado de características modernas, adequadas ao enfrentamento de uma criminalidade tida com das mais violentas e que já nasceria com o marketing – discutível, mas eficaz – de que “se serve pra proteger os policiais no Rio, certamente serve para quaisquer cenários!”
Em 2004 eu pensava que as polícias estaduais deveriam preparar seus requerimentos operacionais mais básicos; explicando o que elas necessitariam numa viatura blindada. Tais exigências seriam remetidas ao órgão do Ministério da Justiça, que estabeleceria uma concorrência envolvendo nossas indústrias de veículos e fábricas de carrocerias, a fim de selecionar os melhores projetos. Os projetos seriam apreciados tecnicamente por uma comissão especializada (formada por policiais, engenheiros e militares especializados em moto-mecanização) e seriam selecionados os dois melhores. As indústrias finalistas então receberiam uma quantia para confeccionarem seus protótipos. Na fase final, tais protótipos seriam avaliados “no campo” e se produziria o melhor deles. Como vários estados estariam certamente interessados, teríamos economia de escala, o que baratearia o custo.
Ressalte-se que além das polícias estaduais, existe muito mercado no exterior para uma viatura de transporte blindada, de pouca sofisticação tecnológica e de baixo custo. Os americanos, no Iraque, vem adquirindo grandes quantidades de veículos blindados, pois em sua guerra “não linear”, sem uma frente de combate clássica, a possibilidade de sobrevivência em quaisquer veículos não protegidos é extremamente pequena. No quadrinho, a preocupação das tropas americanas no Iraque quanto à blindagem de seus veículos. Se antigamente os veículos de transporte de pessoal e de suprimento (como caminhões, caminhonetes e jipes) empregados em funções de retaguarda podiam dispensar a proteção blindada, as ações no Iraque, onde eles podem ser atingidos a qualquer hora e praticamente em qualquer lugar, estão forçando um dispendioso re-aparelhamento, tanto das forças militares americanas quanto das empresas ocidentais que atuam comercialmente no país. A necessidade de aumentar a resistência dos veículos aos constantes ataques com armas leves, foguetes anti-tanque e artefatos explosivos de acionamento remoto faz com que militares e empresas de segurança ocidentais se dediquem a reforçar a blindagem de seus veículos.
Hoje, em face da ocupação no Iraque, existe uma enorme demanda por caminhonetes blindadas baseadas na mecânica Ford F-550 Super Duty, Chevrolet Suburban, bem como transportes blindados de custo relativamente baixo como o Bearcat americano ou o polonês DZIK 3, adquirido para equipar a polícia iraquiana. Por certo haveria espaço para mais um bom veículo blindado brasileiro. Para disputar esse nicho de mercado, a Blackwater, maior empresa privada de operações militares e de segurança, que também atua no Iraque, desenvolveu um veículo blindado, simples e relativamente barato, cujo desenho, bastante interessante, oferece tanto proteção contra disparos de armas de fogo quanto contra minas e explosões laterais. Trata-se de uma carroceria especial, com blindagem inclinada (favorecendo excepcionalmente ao ricochete dos projéteis) em chapa dupla, capaz de resistir ao disparo de munições de calibre .50”, aplicada em um chassi de caminhão que também pode ter tração nas quatro rodas (no caso de um blindado que necessite trafegar por áreas não pavimentadas). Tal veículo contempla algumas soluções engenhosas que certamente poderiam ser adotadas em nossos futuros blindados policiais.
É importante reiterar que os blindados policiais fluminenses, por mais deficientes que os sejam, são uma ferramenta indispensável para conduzir a tropa policial em áreas onde possa ser facilmente alvejada. As viaturas blindadas da polícia não são solução para o problema da criminalidade, mas o trabalho sem elas, hoje, permitiria que a criminalidade voltasse a desfrutar de santuários, totalmente fora do alcance da autoridade do Estado. Falar em desativar os “Caveirões” é fácil para aqueles que andam em seus próprios automóveis blindados, para os que jamais terão de adentrar em áreas conflagradas (se expondo aos tiros de fuzil, desferidos por criminosos que não tem o menor respeito pela vida do próximo) ou para aqueles que simpatizam ou lucram diretamente com a criminalidade. Recentes gravações das comunicações dos traficantes em um morro carioca demonstram que eles não estão nem um pouco preocupados com baixas colaterais de inocentes e que, pelo contrário, atiram deliberadamente em civis quando isso lhes é conveniente. Falar é sempre algo muito fácil: discorremos sobre a necessidade de patrulhar as fronteiras e obstruir o fluxo de armas mas muito poucos de nós já tivemos oportunidade de conhecer “in loco” os limites de um país tão extenso quanto o nosso e as dificuldades de implementar algo que, ao menos “de boca” parece tão fácil. Será que esses “entendidos” sabem das profundas limitações de recursos que há muito acometem as nossas forças armadas?
Falamos em Inteligência como se fosse a “bala de prata” que vai resolver nossos problemas da segurança pública, mas continuamos nos referindo pejorativamente aos profissionais da área como “Arapongas”, achando que colaborar com as forças policiais “é coisa de X-9” e sobretudo, esquecendo que muitas das operações de inteligência obrigatoriamente vão terminar com a tentativa de captura de indivíduos motivados e armados, os quais não tem por objetivo se deixar prender com facilidade. Só os ingênuos (ou os mal intencionados) acreditam que a inteligência seja capaz de eliminar a perspectiva de confrontações e tiroteios em 100% dos casos. Nós somos o povo que reclama da corrupção policial mas não que não se furta de tentar contornar com “uma cervejinha” a multa da infração de trânsito. Nossa sociedade hipócrita continua de olhos fechados para o fato de que muitos de nossos políticos, ídolos, artistas, atores, intelectuais, jornalistas e até atletas, são usuários eventuais de drogas; e é com o dinheiro dessas pessoas “de bem”, que usam drogas discretamente, no santo aconchego de suas respectivas privacidades, que traficantes de drogas movimentam seus negócios sujos, praticam seu terrorismo, contrabandeiam fuzis, metralhadoras e granadas, matam e mandam matar. O poder daqueles que hoje nos esforçamos para manter encarcerados fora do Rio de Janeiro é mantido graças ao dinheiro do mesmo cidadão que vai furioso à Delegacia dar queixa de que perdeu seu Rolex num assalto no sinal de trânsito. A guerra contra o crime passa obrigatoriamente por uma revisão de conceitos e pela dura tomada de posição de nossa sociedade. Para vencer o crime esta mesma sociedade precisa estar disposta a participar com esforço, engajar e não apenas lamentar, ir a passeatas e vestir-se de branco. Do contrário, acredito que muito em breve estaremos falando em dotar as nossas polícias de autênticos carros de combate médios, da mesma forma que hoje já aventamos a aquisição de helicópteros blindados.
© by Vinicius Domingues Cavalcante, CPP 2007.













